Por que construímos na nossa mente que toda pessoa que vive com HIV é promíscua?

Quando alguém revela que vive com HIV, muitas pessoas ainda fazem uma associação quase automática: “deve ter sido promíscuo”.

Essa conclusão costuma aparecer antes mesmo de qualquer informação sobre a vida daquela pessoa. Não se sabe quantos relacionamentos ela teve, como aconteceu a transmissão, se nasceu com HIV ou se adquiriu o vírus dentro de uma relação estável. Ainda assim, parte da sociedade sente que já conhece sua história.

Mas por que fazemos essa ligação?

A resposta não está na biologia do HIV. Está na história, na cultura, na religião e na maneira como aprendemos a julgar a sexualidade.

O que significa promiscuidade?

Antes de associar essa palavra ao HIV, precisamos entender de onde ela veio.

“Promiscuidade” tem origem no latim promiscuus. A palavra era utilizada com sentidos como “misturado”, “em comum”, “sem separação” ou “sem distinção”. Ela está relacionada ao verbo latino miscere, que significa “misturar”. Portanto, originalmente, o termo não descrevia necessariamente a vida sexual de alguém. Poderia indicar apenas que pessoas, grupos ou coisas estavam misturados, compartilhados ou não separados por categorias rígidas. (Wiktionary)

Com o passar do tempo, a palavra passou a ser usada para falar de relações sexuais consideradas “indiscriminadas”, especialmente quando uma pessoa se relacionava com mais de um parceiro ou não seguia o modelo de relacionamento valorizado socialmente. No inglês, por exemplo, o sentido especificamente relacionado a relações sexuais sem restrição a uma única pessoa já aparece registrado no século XIX. (Dicionário Etimológico Online)

Foi assim que uma palavra ligada à ideia de mistura ganhou um peso moral.

“Promíscuo” deixou de significar apenas alguém que se mistura ou não se restringe a uma categoria. Passou a ser utilizado como acusação.

Mas existe um problema: não há uma quantidade universal de parceiros que transforme alguém em promíscuo.

Para uma pessoa conservadora, ter três parceiros pode parecer excessivo. Para outra, dez podem não representar qualquer problema. Alguém pode considerar promíscua uma pessoa que se relaciona com vários parceiros, mas não utilizar a mesma palavra para um homem casado que mantém relações escondidas.

Isso mostra que promiscuidade não é uma medida científica objetiva. É um julgamento construído a partir dos valores de quem observa.

Na prática, a palavra costuma ser utilizada para separar as pessoas entre aquelas cuja sexualidade seria considerada “correta” e aquelas que teriam ultrapassado um limite moral.

A pergunta, portanto, não deveria ser apenas “quem é promíscuo?”, mas:

Quem decidiu qual quantidade de desejo, parceiros ou experiências seria aceitável?

A construção do sexo considerado correto

Ao longo da história, muitas sociedades organizaram a sexualidade em torno da reprodução, do casamento, da monogamia e da formação da família.

O sexo considerado legítimo era aquele praticado dentro de determinadas regras.

Tudo o que escapava desse modelo poderia ser tratado como excesso, desvio, pecado, perversão ou promiscuidade.

Nesse processo, a palavra não serviu apenas para descrever comportamentos. Ela passou a vigiar corpos.

Mulheres sexualmente livres foram chamadas de promíscuas. Homens gays foram apresentados como pessoas incapazes de controlar seus desejos. Profissionais do sexo foram reduzidos à própria atividade. Pessoas que frequentavam determinados espaços ou tinham relações fora do casamento passaram a ser vistas como moralmente inferiores.

Curiosamente, o julgamento raramente foi aplicado da mesma maneira a todas as pessoas.

Durante muito tempo, homens heterossexuais foram incentivados a demonstrar experiência sexual, enquanto mulheres eram julgadas por fazer o mesmo. A quantidade de parceiros poderia ser vista como sinal de masculinidade para uns e como falta de caráter para outras.

Portanto, quando falamos em promiscuidade, não estamos falando apenas sobre sexo.

Estamos falando sobre poder, gênero, religião, classe social, orientação sexual e controle.

O HIV nunca foi apenas um vírus

Quando os primeiros casos de AIDS foram identificados, no início da década de 1980, pouco se sabia sobre a infecção.

Antes mesmo de a ciência explicar completamente como ocorria a transmissão, parte da imprensa e da sociedade passou a associar a epidemia principalmente a homens gays, usuários de drogas, profissionais do sexo e pessoas com múltiplos parceiros.

O HIV foi colocado dentro de uma estrutura moral que já existia.

A sociedade já possuía uma palavra para classificar quem supostamente praticava um sexo considerado excessivo: “promíscuo”.

Assim, o diagnóstico passou a ser interpretado como uma espécie de prova.

Se alguém vivia com HIV, parte da sociedade concluía que aquela pessoa deveria ter transgredido alguma regra sexual.

O vírus deixou de ser apenas uma questão de saúde e se tornou, socialmente, um marcador moral.

Em vez de perguntar “como podemos cuidar dessa pessoa?”, passou-se a perguntar “o que ela fez para isso acontecer?”.

Nossa mente gosta de encontrar culpados

Diante de acontecimentos assustadores, buscamos explicações que façam o mundo parecer previsível.

Se acreditarmos que apenas pessoas “irresponsáveis” ou “promíscuas” adquirem HIV, podemos criar uma falsa sensação de proteção.

Pensamos:

“Isso nunca acontecerá comigo porque eu não sou como elas.”

Essa ideia se aproxima do que a psicologia social chama de crença em um mundo justo: a tendência de imaginar que as pessoas recebem aquilo que merecem.

Quando essa lógica é aplicada ao HIV, a infecção deixa de ser vista como uma possibilidade humana e passa a ser tratada como punição.

Essa construção acalma quem julga, porque cria uma distância imaginária entre “nós” e “eles”.

De um lado estariam as pessoas cuidadosas, corretas e respeitáveis.

Do outro estariam as pessoas irresponsáveis, descontroladas e promíscuas.

Essa divisão, entretanto, nunca existiu na realidade.

Freud e a repressão da sexualidade

Sigmund Freud mostrou que a sexualidade humana é muito mais ampla, contraditória e complexa do que a sociedade costuma admitir.

Em Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, Freud questionou a ideia de que existiria apenas uma sexualidade natural, simples e completamente direcionada à reprodução.

Mais tarde, em O mal-estar na civilização, discutiu como a vida coletiva exige renúncias, limites e controle dos impulsos. Para que a pessoa seja aceita socialmente, ela aprende que determinados desejos podem ser demonstrados, enquanto outros precisam ser escondidos, reprimidos ou transformados.

Isso nos ajuda a compreender por que o julgamento sexual pode ser tão intenso.

Todos possuímos desejos, fantasias e contradições. Entretanto, nem todos conseguem reconhecer isso em si mesmos.

A tradição psicanalítica também descreve a projeção, mecanismo pelo qual uma pessoa atribui ao outro sentimentos, desejos ou características que tem dificuldade de reconhecer dentro de si.

Dessa forma, condenar a sexualidade alheia pode funcionar como uma defesa.

Em vez de entrar em contato com os próprios conflitos, a pessoa transforma o outro em símbolo do descontrole.

A pessoa que vive com HIV passa a representar tudo aquilo que o observador teme: o desejo, a exposição, a vulnerabilidade, a rejeição e a possibilidade de não possuir tanto controle quanto imaginava.

Foucault e o controle dos corpos

Michel Foucault mostrou que a sociedade não apenas proibiu o sexo. Ela produziu discursos, classificações e regras sobre ele.

A medicina, a religião, a escola, a família, o direito e o Estado passaram a definir quais práticas eram normais e quais seriam perigosas, desviantes ou doentes.

O sexo tornou-se objeto de investigação e vigilância.

As pessoas passaram a ser classificadas não apenas pelo que faziam, mas pelo que supostamente eram.

Não era apenas alguém que teve uma experiência com uma pessoa do mesmo sexo. Passava a ser “o homossexual”.

Não era apenas uma mulher que possuía vários parceiros. Passava a ser “a promíscua”.

Não era apenas uma pessoa diagnosticada com uma infecção. Passava a ser “o aidético”.

Essa transformação reduz uma vida inteira a uma categoria.

Quando surgiu o HIV, essa estrutura de controle já estava pronta. A epidemia foi encaixada em discursos antigos sobre pecado, desvio, perigo e contaminação.

A sexologia e a educação sexual

No Brasil, Marta Suplicy teve participação importante na popularização da educação sexual, especialmente a partir da década de 1980, ao abordar temas que ainda eram tratados com vergonha, silêncio e culpa.

A educação sexual ajuda a compreender que sexualidade não é sinônimo de falta de controle. Ela envolve afeto, identidade, desejo, prazer, reprodução, cultura, prevenção, limites, consentimento e relações humanas.

Quando uma sociedade não oferece educação sexual adequada, o espaço do conhecimento costuma ser ocupado pelo medo.

Nesse ambiente, uma infecção sexualmente transmissível pode ser interpretada como sinal de sujeira, pecado ou fracasso moral.

Mas nenhuma infecção possui a capacidade de revelar o caráter de uma pessoa.

Um exame de HIV identifica a presença de um vírus. Ele não mede responsabilidade, fidelidade, honestidade, dignidade nem valor humano.

A realidade não combina com o preconceito

Pessoas vivendo com HIV possuem histórias extremamente diferentes.

Algumas tiveram poucos parceiros durante toda a vida.

Outras adquiriram o vírus dentro de relacionamentos longos.

Algumas se infectaram na primeira relação sexual.

Outras nasceram vivendo com HIV.

Há pessoas que sofreram violência sexual.

Há pessoas que não receberam informações adequadas sobre prevenção.

Há pessoas que confiaram em seus parceiros.

Há também pessoas que tiveram muitos parceiros, assim como existem pessoas sem HIV que tiveram muitos parceiros.

O número de experiências sexuais não determina o valor de ninguém.

Além disso, ter apenas um parceiro não elimina automaticamente a possibilidade de transmissão. Uma pessoa pode viver uma relação monogâmica, acreditar que existe exclusividade e não conhecer completamente a vida sexual do companheiro.

Por isso, o HIV não pode ser resumido à palavra promiscuidade.

O preconceito cria uma falsa segurança

A associação entre HIV e promiscuidade não prejudica apenas quem vive com o vírus.

Ela prejudica toda a sociedade.

Quando alguém acredita que apenas determinados grupos podem adquirir HIV, pode deixar de se testar, de conversar sobre prevenção ou de avaliar a própria vulnerabilidade.

A pessoa pensa que casamento, religião, orientação sexual ou uma quantidade pequena de parceiros funcionam como proteção biológica.

Não funcionam.

O preconceito produz a fantasia de que o HIV sempre pertence ao outro.

E, quando o risco é imaginado como algo distante, a prevenção também se torna distante.

O estigma não é apenas uma opinião individual

Richard Parker e Peter Aggleton explicam que o estigma relacionado ao HIV não deve ser entendido apenas como preconceito pessoal. Ele também é produzido por desigualdades sociais e relações de poder.

O estigma utiliza ideias já existentes sobre sexualidade, gênero, raça, pobreza e orientação sexual para separar pessoas consideradas respeitáveis daquelas vistas como perigosas ou inferiores. (PubMed)

Por isso, o estigma do HIV não nasceu apenas da falta de informação sobre o vírus.

Ele encontrou força em preconceitos que já estavam presentes na sociedade.

O HIV não criou o julgamento sobre a sexualidade. Ele foi utilizado para reforçá-lo.

A ciência desmontou vários mitos

Hoje sabemos que o HIV pode estar presente na vida de pessoas de diferentes orientações sexuais, identidades, profissões, religiões e histórias afetivas.

Também sabemos que uma pessoa em tratamento, que mantém a carga viral indetectável, não transmite o HIV por via sexual.

Uma pessoa vivendo com HIV, acompanhada e tratada, pode viver uma vida longa, trabalhar, amar, ter relações, construir família e realizar projetos. (CDC)

Ainda assim, parte da sociedade continua reagindo ao diagnóstico com conceitos construídos há décadas.

A ciência avançou.

O imaginário social nem sempre avançou na mesma velocidade.

A palavra promiscuidade revela mais sobre quem julga

Quando alguém chama outra pessoa de promíscua, acredita estar descrevendo objetivamente um comportamento.

Na verdade, pode estar revelando seus próprios valores, medos e limites.

Qual quantidade de parceiros seria considerada aceitável?

Um?

Três?

Dez?

Esse número mudaria dependendo do gênero, da orientação sexual ou da classe social da pessoa?

Uma pessoa casada que trai é menos promíscua do que uma pessoa solteira que mantém diferentes relações consensuais?

Uma pessoa que teve muitos parceiros, utilizou prevenção e realizou testagens seria necessariamente mais irresponsável do que alguém que teve apenas um parceiro, mas nunca conversou sobre saúde sexual?

Essas perguntas mostram que a palavra “promíscuo” não é neutra.

Ela organiza moralmente a sexualidade.

Talvez a pergunta certa seja outra

Em vez de perguntar:

“Quantos parceiros essa pessoa teve?”

Talvez devêssemos perguntar:

“Por que ainda sentimos necessidade de transformar uma infecção em julgamento moral?”

Por que um diagnóstico desperta tanta curiosidade sobre a intimidade de alguém?

Por que algumas pessoas precisam imaginar que quem vive com HIV fez algo para merecer?

Por que utilizamos uma palavra que originalmente significava mistura para separar pessoas entre dignas e indignas?

O estigma fala muito menos sobre quem vive com HIV e muito mais sobre os medos, os preconceitos e os valores de uma sociedade que ainda confunde saúde com caráter.

Uma pessoa não é seu exame.

Uma pessoa não é o número de parceiros que teve.

E nenhuma infecção autoriza a sociedade a transformar a vida sexual de alguém em julgamento público.

Referências teóricas

Freud, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. 1905.

Freud, Sigmund. A moral sexual “cultural” e o nervosismo moderno. 1908.

Freud, Sigmund. O mal-estar na civilização. 1930.

Freud, Anna. O ego e os mecanismos de defesa. 1936.

Foucault, Michel. História da sexualidade: a vontade de saber. 1976.

Goffman, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. 1963.

Suplicy, Marta. Conversando sobre sexo. 1983.

Parker, Richard; Aggleton, Peter. HIV and AIDS-related stigma and discrimination: a conceptual framework and implications for action. Social Science & Medicine. 2003.

Herek, Gregory M. AIDS and stigma. American Behavioral Scientist. 1999.

UNAIDS. Publicações e relatórios sobre estigma, discriminação e HIV.

Ministério da Saúde. Protocolos e materiais de prevenção, cuidado e enfrentamento ao estigma relacionado ao HIV.