Uma pessoa conhece alguém em um aplicativo. Conversa, marca um encontro, se envolve. Não pergunta quando foi o último teste de HIV. Não sabe se a pessoa usa PrEP. Não sabe sua carga viral porque nem sequer sabe sua sorologia.
E, muitas vezes, isso não produz medo.
Mas basta outra pessoa dizer:
“Eu vivo com HIV. Faço meu tratamento e sou indetectável.”
E o medo aparece.
Existe uma contradição importante aí. Porque, quando uma pessoa vivendo com HIV mantém a carga viral suprimida nos parâmetros estabelecidos pelas evidências de I=I, ela não transmite HIV por via sexual.
Então precisamos fazer uma pergunta desconfortável:
Se o risco de transmissão sexual é zero, do que você está com medo? Do HIV ou da pessoa que vive com HIV?
A ciência mudou. O imaginário social nem sempre acompanhou.
Durante décadas, HIV e aids foram associados à morte, sofrimento, sexualidade, culpa e determinados grupos sociais.
Esse imaginário não desaparece automaticamente quando surgem novas evidências científicas.
Estudos como HPTN 052, PARTNER 1, PARTNER 2 e Opposites Attract acompanharam milhares de casais sorodiferentes e forneceram a base científica para o consenso de Indetectável = Intransmissível (I=I).
No PARTNER2, por exemplo, foram registradas aproximadamente 77 mil relações sexuais sem preservativo entre casais de homens, com o parceiro vivendo com HIV apresentando carga viral suprimida. Não ocorreu nenhuma transmissão geneticamente vinculada ao parceiro em tratamento.
Hoje, organismos como a Organização Mundial da Saúde (OMS), UNAIDS, CDC e Ministério da Saúde reconhecem a evidência de que a supressão viral impede a transmissão sexual do HIV.
O problema é que atualizar uma diretriz pode ser mais rápido do que atualizar uma representação social construída durante mais de quatro décadas.
O preconceito não precisa ser racional para continuar existindo
É aqui que podemos compreender o estigma relacionado ao HIV a partir de autores como Erving Goffman.
O estigma transforma determinada característica em uma marca social capaz de reorganizar a maneira como enxergamos uma pessoa inteira.
Ela deixa de ser simplesmente João, Maria, Pedro ou Ana.
Passa a ser:
“a pessoa que tem HIV”.
E tudo o que historicamente foi associado ao HIV pode ser projetado sobre ela.
Isso ajuda a explicar um fenômeno curioso: alguém pode aceitar uma relação com uma pessoa cuja sorologia desconhece e, minutos depois, recusar uma pessoa indetectável simplesmente porque ela revelou que vive com HIV.
O dado objetivo sobre o risco diminuiu.
Mas a percepção subjetiva do perigo aumentou.
Antes de você saber, estava tudo bem. O que mudou?
Essa talvez seja uma das contradições mais importantes quando falamos de preconceito relacionado ao HIV.
Imagine duas pessoas se conhecendo.
Existe atração. Existe desejo. Existe conversa. Talvez já tenha acontecido uma relação. Talvez estejam começando um relacionamento.
Até aquele momento, está tudo bem.
Então uma delas diz:
“Eu vivo com HIV.”
Fisicamente, nada mudou.
É a mesma pessoa.
O tratamento é o mesmo.
Se ela era indetectável cinco minutos antes de contar, continua indetectável cinco minutos depois.
O risco de transmissão sexual não apareceu porque a sorologia foi revelada.
O que mudou foi a informação que você recebeu sobre aquela pessoa.
E, algumas vezes, essa única informação é suficiente para reorganizar completamente a maneira como ela passa a ser enxergada.
A pessoa que era desejável passa a ser considerada perigosa.
A pessoa que parecia saudável passa a ser vista como doente.
A pessoa que despertava interesse passa a provocar medo.
A pessoa que poderia ser um relacionamento passa a ser descartada.
Por isso existe uma pergunta que vale a pena fazer:
Se nada biologicamente mudou depois que ela revelou o diagnóstico, por que o seu olhar mudou?
Essa mudança pode revelar que o incômodo não está necessariamente no risco de transmissão do HIV.
Pode estar no significado social que ainda atribuímos a quem vive com HIV.
“Mas ela deveria ter me contado antes.”
Existe ainda outro ponto delicado nessa discussão.
Quando alguém descobre posteriormente que uma pessoa com quem se relacionou vive com HIV, é comum aparecerem palavras como:
“Mentiu.”
“Escondeu.”
“Não foi leal.”
“Eu tinha o direito de saber.”
É importante separar questões diferentes.
Confiança, acordos e expectativas de transparência fazem parte das relações e podem ser discutidos entre as pessoas envolvidas. Também existem contextos jurídicos específicos que não devem ser reduzidos a uma regra genérica.
Mas existe outra pergunta que quase nunca fazemos:
Por que esperamos que uma pessoa vivendo com HIV revele uma informação íntima sobre sua saúde para ser considerada moralmente correta, mesmo quando ela está indetectável e não existe risco de transmissão sexual?
E mais:
por que essa cobrança muitas vezes é maior do que a cobrança feita a quem desconhece a própria sorologia?
Uma pessoa pode nunca ter realizado um teste recente e ninguém exige que ela comece uma relação dizendo:
“Eu não sei minha sorologia.”
Outra pode realizar acompanhamento médico, tomar sua medicação diariamente, conhecer sua carga viral e estar indetectável.
Mas é justamente dela que se espera uma declaração.
Isso mostra como o debate não envolve apenas prevenção.
Envolve também moralidade, sexualidade, confiança e estigma.
Por que alguém esconderia que vive com HIV?
Antes de perguntar:
“Por que ela não me contou?”
Talvez também seja necessário perguntar:
“O que acontece com as pessoas quando elas contam?”
Elas podem ser rejeitadas.
Podem ter sua intimidade exposta.
Podem ser bloqueadas em aplicativos.
Podem perder relacionamentos.
Podem virar assunto em grupos de WhatsApp.
Podem sofrer violência.
Podem passar a ser vistas exclusivamente pela sorologia.
A revelação de um diagnóstico de HIV não acontece em um vazio social.
Ela acontece em uma sociedade que ainda estigmatiza quem vive com HIV.
Por isso, esconder ou adiar a revelação da sorologia pode estar relacionado ao medo das consequências sociais dessa informação.
Isso não significa dizer que confiança e diálogo não importam dentro de uma relação.
Significa reconhecer que exigir revelação sem discutir o preconceito que torna essa revelação perigosa é olhar apenas para metade do problema.
Existe uma ironia nisso:
Nós perguntamos por que algumas pessoas escondem que vivem com HIV, mas raramente perguntamos se construímos uma sociedade segura o suficiente para que elas possam falar.
Se você sabe que I=I e mesmo assim tudo muda, talvez seja necessário olhar para o preconceito
Conhecer I=I não significa automaticamente eliminar décadas de construção social sobre HIV.
Uma pessoa pode racionalmente saber:
“Indetectável não transmite.”
E emocionalmente continuar pensando:
“Mas eu não conseguiria me relacionar com alguém que tem HIV.”
É justamente aí que existe espaço para reflexão.
Não significa que toda decisão afetiva ou sexual possa ser reduzida automaticamente a preconceito.
Mas, quando o único elemento que mudou foi descobrir a sorologia, vale perguntar de onde veio essa mudança.
Se antes havia desejo, confiança e interesse e, depois das palavras “eu vivo com HIV”, surge medo mesmo sabendo que não existe transmissão sexual quando a pessoa está indetectável, talvez parte desse incômodo esteja relacionada ao estigma.
Reconhecer isso pode ser desconfortável.
Porque é muito mais fácil dizer:
“É apenas uma preferência.”
do que perguntar:
“Por que essa informação mudou completamente a maneira como eu enxergo essa pessoa?”
Preconceito não existe apenas quando alguém insulta, agride ou deliberadamente discrimina.
Ele também pode aparecer em associações aprendidas ao longo da vida e que nunca foram questionadas.
E existe preconceito dentro da própria comunidade
Talvez essa seja uma das conversas mais difíceis.
Pessoas vivendo com HIV também podem reproduzir preconceitos relacionados ao HIV.
Uma pessoa diagnosticada há anos pode julgar alguém recém-diagnosticado.
Alguém indetectável pode tentar se distanciar de quem está detectável.
Uma pessoa que adquiriu HIV por transmissão vertical pode acreditar que sua história é socialmente mais aceitável do que a de alguém que adquiriu HIV em uma relação sexual.
Alguém pode pensar:
“Eu vivo com HIV, mas não sou como essas pessoas.”
Isso pode ser compreendido pela ideia de estigma internalizado: discursos negativos existentes na sociedade podem ser incorporados pelas próprias pessoas que pertencem ao grupo estigmatizado.
Mas há ainda outro fenômeno importante: o preconceito intragrupo.
Pertencer a um grupo social não imuniza ninguém contra os preconceitos existentes dentro dele. Grupos também criam fronteiras, hierarquias e critérios simbólicos de pertencimento.
E é aqui que entra outra palavra importante.
Gregarismo: quando pertencer também significa excluir
O ser humano é profundamente social.
Buscamos grupos porque eles oferecem identidade, proteção, reconhecimento e pertencimento.
Essa tendência de nos aproximarmos de pessoas percebidas como semelhantes pode ser chamada, em sentido amplo, de gregarismo.
O problema começa quando:
“nós” só conseguimos existir porque existe “eles”.
A psicologia social estudou extensamente como a simples divisão das pessoas em grupos pode favorecer o próprio grupo. Os trabalhos clássicos de Henri Tajfel e John Turner, que deram origem à Teoria da Identidade Social, ajudam a compreender esse mecanismo.
Criamos categorias.
PVHIV e pessoas que não vivem com HIV.
Indetectáveis e detectáveis.
Quem “se cuidou” e quem “não se cuidou”.
Quem adquiriu HIV de uma maneira considerada socialmente aceitável e quem adquiriu de outra.
Quem revelou a sorologia e quem não revelou.
Dentro dessas categorias podem nascer novas hierarquias.
Por isso, combater a sorofobia não significa apenas convencer quem não vive com HIV a respeitar quem vive.
Também significa olhar para os preconceitos que reproduzimos dentro da própria comunidade.
Às vezes, afastar o outro é uma tentativa de afastar o próprio estigma
Existe ainda um mecanismo especialmente doloroso.
Quando determinado grupo é socialmente estigmatizado, algumas pessoas podem tentar demonstrar que, embora façam parte dele, não pertencem ao estereótipo associado ao grupo.
“Eu tenho HIV, mas sempre me cuidei.”
“Eu tenho HIV, mas foi dentro de um relacionamento.”
“Eu tenho HIV, mas não tenho cara de quem tem.”
“Eu tenho HIV, mas sou indetectável.”
Perceba como algumas dessas frases podem tentar criar uma distância simbólica:
eu sou um deles, mas não sou como eles.
Isso pode oferecer uma sensação momentânea de proteção individual.
Mas existe um preço coletivo.
Para retirar o estigma de mim, eu posso acabar colocando esse mesmo estigma em outra pessoa.
O HIV mudou. Nosso olhar precisa acompanhar
Hoje temos tratamento altamente eficaz, PrEP, PEP, testagem, prevenção combinada e evidências robustas sobre I=I.
Ainda assim, alguém pode ouvir:
“Eu sou indetectável.”
E interpretar:
“Perigo.”
Talvez essa reação diga menos sobre o HIV que existe no organismo daquela pessoa e mais sobre o HIV que ainda existe no nosso imaginário social.
Por isso, falar de HIV não pode ser apenas falar de carga viral, CD4 e medicamentos.
Precisamos falar de psicologia, pertencimento, identidade, estigma, preconceito intragrupo e relações sociais.
Porque medicamentos conseguem controlar o vírus.
Mas comprimidos não tratam preconceito.
E talvez seja justamente por isso que, depois de tantas décadas de avanços científicos, ainda precisamos repetir:
Você não precisa ter medo de quem vive com HIV. Precisa ter informação.
Referências
RODGER, A. J. et al. Risk of HIV transmission through condomless sex in serodifferent gay couples with the HIV-positive partner taking suppressive antiretroviral therapy (PARTNER2). The Lancet, 2019.
RODGER, A. J. et al. Sexual activity without condoms and risk of HIV transmission in serodifferent couples when the HIV-positive partner is using suppressive antiretroviral therapy. JAMA, 2016.
COHEN, M. S. et al. Antiretroviral Therapy for the Prevention of HIV-1 Transmission. New England Journal of Medicine, 2016. HPTN 052.
BAVINTON, B. R. et al. Viral suppression and HIV transmission in serodiscordant male couples: an international, prospective, observational cohort study. The Lancet HIV, 2018. Opposites Attract.
GOFFMAN, E. Stigma: Notes on the Management of Spoiled Identity. 1963.
TAJFEL, H.; TURNER, J. C. An Integrative Theory of Intergroup Conflict. 1979.
UNAIDS. Undetectable = Untransmittable (U=U).
WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). The role of HIV viral suppression in improving individual health and reducing transmission. 2023.
BRASIL. Ministério da Saúde. Documentos e orientações sobre Indetectável = Intransmissível (I=I) e prevenção combinada do HIV.

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